sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago !

Niassa - 2001 - Mocambique (Sérgio Santimano)


No dia seguinte ninguém morreu. o facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada.
[...]
No comunicado oficial, finalmente difundido já a noite ia adiantada, o chefe do governo ratificava que não se haviam registado quaisquer defunções em todo o país país teve de viver até hoje, não se trata disso, De que se trata então, eminência, é a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião, eminência, perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar, Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja, Ó diabo, não percebi o que acaba de dizer, repita, por favor, estava calado, eminência, provavelmente terá sido alguma interferência causada pela electricidade atmosférica, pela estática, ou mesmo um problema de cobertura, o satélite às vezes falha, dizia vossa eminência que, Dizia o que qualquer católico, e o senhor não é uma excepção, tem obrigação de saber, que sem ressurreição não há igreja, além disso, como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim, afirmá-lo é uma ideia absolutamente sacrílega, talvez a pior das blasfémias, eminência, eu não disse que deus queria o seu próprio fim, De facto, por essas exactas palavras, não, mas admitiu a possibilidade de que a imortalidade do corpo resultasse da vontade de deus, não será preciso ser-se doutorado em lógica transcendental para perceber que quem diz uma coisa, diz a outra, eminência, por favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a política tem destas necessidades, Também a igreja as tem, senhor primeiro-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para compreender melhor, é a balística, estou desolado, eminência, no seu lugar também o estaria. Como se estivesse a avaliar o tempo que a granada levaria a cair, o cardeal fez uma pausa, depois, em tom mais suave, mais cordial, continuou, Gostaria de saber se o senhor primeiro-ministro levou a declaração ao conhecimento de sua majestade antes de a ler aos meios de comunicação social, naturalmente, eminência, tratando-se de um assunto de tanto melindre, e que disse o rei, se não é segredo de estado, pareceu-lhe bem, Fez algum comentário ao terminar, estupendo, estupendo, quê, Foi o que sua majestade me disse, estupendo, Quer dizer que também blasfemou [...].
José Saramago, in Intermitências da Morte

terça-feira, 15 de junho de 2010

Jornalismo investigativo !

Sérgio Santimano. Auto-retrato "Centro de estudos Culturais" 1979


DROGAS:
Revisitando a história recente
Por Paul Fauvet
Quando a 1 de Junho o presidente
Barack Obama nomeou o empresário
Mohamed Bachir Suleman como um
barão da droga, a reacção avassaladora
nos media moçambicanos foi de surpresa,
choque - e até mesmo de condenação aos
americanos por arruinarem um empresário
supostamente inocente.
No entanto, a movimentação norteamericana
contra um alegado “barão” de
drogas moçambicano não deve constituir
nenhuma surpresa. Desde meados da
década de 1990, Moçambique tem sido
usado como corredor por traficantes de
drogas, mas até agora nenhuma figura
chave no tráfico já foi condenada.
Grandes apreensões de droga
foram feitas. Assim, em 1995, a
polícia apreendeu 40 toneladas de
haxixe transportadas por Maputo,
em dois camiões. As investigações
definharam , e a única pessoa verdadeiramente
presa em conexão
com esta apreensão foi o condutor
de camião Samssudine Satar.
Também em 1995, um laboratório
para a produção de mandrax
foi descoberto no bairro Trevo,
na cidade da Matola. As pessoas
que lá trabalhavam atearam-lhe fogo,
mas esta tentativa de destruir as
provas não deu certo, e os policiais
concluíram que o equipamento existente
era para a produção em massa de
mandrax, uma droga para a qual existe
um grande mercado na África do Sul.
Os dez trabalhadores asiáticos
presos no Trevo, na sua maioria
recrutados nas ruas de Bombaim, foram
liberados pelo procurador provincial de
Maputo, Luis Muthisse, apesar de um
juiz se ter recusado a conceder-lhes
fiança. A intervenção do Muthisse (que
perdeu seu trabalho neste escândalo) foi
um dos muitos indícios de conluio de alto
nível com os traficantes.
Os dez asiáticos, apesar de serem
paupérrimos, foram capazes de contratar
os serviços de um advogado de topo,
Maximo Dias, que se recusou a dizer aos
repórteres quem lhe estava pagando.
Coincidentemente, Dias é agora o
advogado de Mohamed Bachir Suleman.
Os equipamentos para a fabricação
do mandrax tinham sido importados
através da empresa de pesca Afropesca.
O director-geral da Afropesca, o
empresário espanhol Luis da Costa Virott,
foi preso, sob suspeita de tráfico de
haxixe do Paquistão para Moçambique.
Como os dez asiáticos, ele foi misteriosamente
libertado após a intervenção
de um advogado português de renome.
A liberação foi condicionada a Virott
permanecer no país - mas alguns dias
depois ele estava num avião rumo a
Lisboa e não houve nenhuma tentativa
para detê-lo.
Em Agosto de 1997, 12 toneladas de
haxixe foram apreendidas a partir de um
esconderijo em Quissanga, na província
nortenha de Cabo Delgado. Um empresário
conhecido, Gulamo Rassul, foi preso em
conexão com este caso. Esta foi a sua
segunda prisão em conexão com drogas
- ele já havia sido nomeado em conexão
com o tráfico de haxixe para a América e
Europa a partir do porto de Nacala, em
recipientes onde a droga era disfarçada
como chá.
Quando este caso foi a julgamento
no ano seguinte, intervenientes menores –
pescadores de Quissanga e proprietários
de embarcações – receberam longas
sentenças, mas os homens que a acusação
considerava como os barões da droga,
Rassul e um certo Momade Bachir
(nenhuma relação com Bachir Suleman),
foram absolvidos. Assim, o motorista de
Rassul apanhou uma pena de cadeia de 12
anos, mas o juiz levou o público a acreditar
que Rassul não sabia nada da actividade
do seu motorista.
Tráfico ocorre também de barco
pelo Canal de Moçambique, em águas
territoriais de Moçambique. Isso veio à
luz dramaticamente quando um barco
que transportava haxixe encalhou nas
rochas ao largo da costa da província de
Inhambane, em Junho de 2000. Cerca
de 16 toneladas de haxixe acondicionado
em latas deram à costa.
Os nove paquistaneses que escaparam
do naufrágio foram condenados
a longas penas de prisão. Mas nada de
novo foi revelado sobre o destino do
haxixe ou os seus proprietários.
Aqueles que têm investigado o
tráfico de drogas, chegaram a algumas
conclusões surpreendentes. Com sede
em Londres, o jornalista Joseph Hanlon
escreveu, num artigo publicado em 28 de
Junho de 2001, no “Metical” editado por
Carlos Cardoso, que “o valor das drogas
ilegais passando por Moçambique é
provavelmente mais do que todo o
comércio externo legal combinado, de
acordo com peritos internacionais” (Isso
foi antes da fundição de alumínio Mozal,
a base das exportações de Moçambique,
ter atingido a sua produção de cruzeiro).
Esses peritos (que não foram
nomeados) “estimam que mais de uma
tonelada por mês de cocaína e heroína
estão agora passando por Moçambique”.
Aquele tráfico de drogas mensais
tinham um valor de retalho estimado em
cerca de 50 milhões de US dólares.
Dado que Moçambique é essencialmente
uma via de trânsito ao invés
de um consumidor de drogas ilícitas, a
maior parte do dinheiro das operações
acaba fora do país. Mas Hanlon sugeriu
que talvez 10 por cento fosse a quota
dispensada aos traficantes locais - o que
seriam 60 milhões de dólares por ano.
Hanlon sugeriu que “o dinheiro da
droga deve ser um dos factores dos
crescimentos recorde de Moçambique
nos últimos anos”.
Este artigo identificou duas rotas da
droga. Hanlon escreveu que a heroína se
movimenta do Paquistão para o Dubai,
em seguida, para a Tanzânia e
Moçambique, antes que seja eventualmente
canalizada para a Europa. A rota da cocaína
está noutra direcção “da Colômbia para o
Brasil, depois para Moçambique a caminho
da Europa e da Ásia Oriental”.
Hanlon alegou que o dinheiro destas
drogas duras, mas também do haxixe e
mandrax, é lavado por meio de bancos e
casas de câmbio. A explosão do número
de casas de câmbio (41 no momento do
artigo de Hanlon) é certamente difícil de
explicar, dado o tamanho relativamente
pequeno da economia legal.
O artigo de Hanlon, não suscitou
qualquer desmentido indignado. Nenhuma
fonte oficial tentou refutar as afirmações
de Hanlon. E Hanlon estava longe de estar
sozinho no alerta para os perigos do tráfico
de drogas, lavagem de dinheiro e o crime
organizado.
Num discurso feito num seminário
internacional realizado em Coimbra em
2003, o juiz Augusto Paulino, agora PGR,
assinalou muitos dos mesmos pontos. Ele
concordou que Moçambique se tornou
uma zona de trânsito no tráfico de cocaína
e que uma segunda rede “activa desde
1992, constituída principalmente por
cidadãos paquistaneses e moçambicanos
de origem paquistanesa, se está
concentrando em haxixe e mandrax”. No
topo disto, vem a rota da heroína, a partir
do Paquistão para a Tanzânia e Moçambique
e depois para a Europa.
“As várias redes de tráfico de drogas
são empresas bem organizadas”,
disse Paulino, “talvez mais organizadas
do que as estruturas do Estado, envolvendo
importadores, exportadores e transportadores
de drogas, operadores no
terreno e informantes”.
Paulino não tinha dúvidas de que
isso só foi possível com a conivência
de funcionários corruptos dentro do
Estado moçambicano. “Os funcionários
aduaneiros são subornados para deixar as
drogas passarem, os oficiais de imigração
facilitam documentos de identificação e
de residência, os policiais são pagos para
olhar para o lado, e é ainda dito que os
magistrados recebem subornos para
ordenar liberações ilegais”, observou ele.
Os lucros da droga foram lavados,
e o resultado foi a proliferação de “mansões
e carros de luxo” - mas parte do dinheiro
seria “reinvestido” em negócios legais
para dissipar suspeitas no futuro”.
Nos sete anos desde que Paulino
falou, nenhum traficante significativo foi
preso, mas há poucas dúvidas de que
Moçambique continue no mapa dos
traficantes. Regularmente serviços
policiais e aduaneiros anunciam a
apreensão de cocaína nos aeroportos de
Maputo e Beira, muitas vezes transportada
no estômago de jovens mulheres
moçambicanas que viajam a partir do
Brasil.
Em nenhum caso, as mulheres
revelaram quem as contratou. O medo de
represálias é claramente maior do que o
medo da prisão. E por todos aqueles que
estão presos - quantos mais passam os
aeroportos sem serem detectados?
Um dos parlamentares mais experientes
no Partido Frelimo, Teodato Hunguana,
em 2002, advertiu que se o Estado
não tomar medidas contra os bandidos,
serão os bandidos a capturar o Estado.
“A única maneira de impedir que o
Estado caia definitivamente nas malhas
do crime é desencadear uma guerra sem
quartel contra os senhores do crime”,
disse Hunguana. Se a guerra fôr limitada
apenas aos homens do gatilho e aos
peixes pequenos, deixando de fora o que
os americanos chamam de “barões”
intocáveis, isto permitirá que eles” se
tornem cada vez mais poderosos e
capazes de tomarem o próprio Estado”.
Quando Paulino ou Hunguana
fizeram soar as suas advertências, eles
foram amplamente aplaudidos pelos
meios de comunicação do país - os
mesmos media que hoje levantam as
mãos horrorizados por o presidente
norte-americano e o Departamento do
Tesouro terem dado um passo sério na
luta contra o crime organizado.
É claro que teria sido muito melhor
se os departamentos moçambicanos
encarregues da aplicação da lei e ordem
moçambicana estivessem dispostos e
aptos a identificar e trazer à justiça os
barões da droga. Porque não fizeram
isso, é perfeitamente razoável que os
americanos tenham decidido tomar
medidas para proteger o seu sistema
financeiro de dinheiro sujo de Moçambique,
assim como eles fazem quando o
dinheiro vem da Colômbia.
Obama merece elogios pela sua
acção, e não um coro abusado de antiamericanismo
barato.

sábado, 12 de junho de 2010

Mundial 2010

foto; Sérgio Santimano da série, "terra incógnita - Niassa 2001/2005


África sabe jogar futebol
Por Henning Mankell *

A mais estranha bola de futebol que eu já vi foi uma velha bota de um soldado, recheada com papel, areia e trapos. De alguma forma, os jogadores conseguiram fazer da bota, não uma bola redonda, mas pelo menos oval. Isso foi em meados da década de 1980, num jogo de futebol em Boane, uma vila fora de Maputo, a capital de Moçambique. O campo de jogo era um terreno adjacente a uma área na qual ninguém se atrevia a andar, muito menos jogar. O motivo? Estava cheio de minas.
Moçambique estava sendo dilacerado por uma guerra civil horrível. De um lado, havia a Frelimo legítima (Frente de Libertação de Moçambique), no outro, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), o exército rebelde quase fantasmagórico criado pelas forças de segurança rodesianas. Quando me lembro desse período, é do horror de que me lembro. Dirigindo-me para casa à noite, depois de ensaiar no Teatro Avenida, em Maputo, onde eu ainda passo metade de cada ano, eu podia ver partes da península da Catembe em chamas. Então eu sabia que os bandidos armados, que constituíam a Renamo, atacaram uma aldeia e mataram sem piedade aqueles que não conseguem escapar.
No meio disto, o futebol era jogado. O jogo foi utilizado como conforto numa época de grande miséria. Aqueles que estavam jogando eram meninos pobres, sem sapatos e com roupas esfarrapadas. O jogo que jogavam era marcado por uma energia furiosa. E o facto de eles serem forçados a jogar em campos pobres e desiguais deu-lhes boas habilidades técnicas, embora a sua capacidade de funcionar como uma equipe fosse pouco impressionante. Os meninos não levavam a sério o jogo, eles jogavam para se divertir. Mas de alguma maneira, ele também foi um protesto contra o inferno sangrento que os rodeava.
Passam 25 anos desde que eu vi aqueles rapazes na manipulação da bota velha de forma brilhante. E agora que a o “FT em profundidade - World Cup 2010” Copa do Mundo será disputada no continente Africano, pela primeira vez, a apenas um par de horas de carro de Boane e Maputo. Se eu tivesse dito aos meninos o que ia acontecer, eles teriam pensado que eu era um deus ou o idiota da aldeia.
Nessa altura a África do Sul era um pária. Ninguém queria nada com ele. E com razão. Apenas uma pequena quantidade de intercâmbio internacional ocorreu no tocante ao desporto. A África do Sul foi uma desgraça.
Então, a história mudou, e muito mais rápido do que qualquer um esperaria. Um dia, Nelson Mandela deixou Robben Island, não apenas como um homem livre, mas também como um vencedor. O apartheid foi esmagado.
Naturalmente, a FIFA não escolheu a África do Sul para a fase da Copa do Mundo, simplesmente por causa de Mandela. Mas ele ainda é considerado como uma espécie de garantia simbólica de que sua nação e o continente Africano serão capazes de acelerar o desafio. E eles vão. Disso eu tenho certeza.
Houve problemas na preparação para a Copa do Mundo. Houve um problema organização de segurança, e tem havido alguns escândalos com projectos de construção e infra-estruturas, a maioria deles envolvendo corrupção. No entanto, a coisa mais importante é que ela terá lugar, e que é possível.
O que significa que a Copa do Mundo dos sul-africanos e de outros cidadãos africanos é um orgulho. Durante as Copas anteriores tocando países distantes e seguida na rádio e na TV, os africanos não deixavam de se alegrar com os sucessos do continente. Houve uma alegria incrível quando os Camarões tiveram um bom desempenho em 1990. Posso também lembrar a felicidade em Maputo, quando a equipe brasileira venceu em 1994. As pessoas dançavam em torno dos seus carros, soando suas buzinas, como se a vitória fosse de Moçambique. O facto de os dois países partilharem a mesma língua, o Português, foi suficientemente bom para justificar a satisfação pela vitória do Brasil.
Outro grande momento foi quando Angola se classificou para a Copa do Mundo 2006 na Alemanha. Eles haviam sido colocados no mesmo grupo que Portugal, os seus opressores coloniais. Viajei para Colónia para ver o jogo, que Portugal venceu por 1-0. Mas o facto de uma das ex-colónias ter conseguido se classificar para a Copa do Mundo foi uma vitória em si. Uma desvantagem histórica tinha sido demolida.
Muitas pessoas perguntam se é possível caracterizar o jogo africano da mesma forma que, por exemplo, caracterizam o futebol sul-americano. A resposta é não.
O continente africano é grande. Há países, como a Nigéria, que geograficamente, bem como demograficamente, cobririam grande parte da Europa. E esse é o erro mais comum que fazemos, considerar África como uma unidade. O seu futebol tem tantas variações como a Europa.
Se há algo especial sobre o futebol africano, pode ser expresso de forma hesitante com duas afirmações: uma delas é que é importante ser capaz de “brincar”, como as crianças em África. A outra é que as tácticas permanecem uma fraqueza.
Será fascinante ver se nesta Copa do Mundo, a jogarem em casa, terá qualquer efeito sobre a maneira como as nações africanas vão jogar como equipes -, até agora, a sua ruína em torneios internacionais. Ninguém realmente acredita que uma equipe africana será capaz de chegar à final. Mas se isso não acontecer este ano, acontecerá em breve, em outro lugar.
De vez em quando vou assistir um jogo de futebol na cidade de Maputo. O que é notável é que nunca o clima entre os torcedores parece agressivo. Eu nunca vi uma luta entre fãs. O clima no estádio é marcado por alegria e barulho incrível, é quase como estar num carnaval. Tambores, cornetas e apitos, assobios, dançando, pulando, gritando e suspirando. Parece-me que a seriedade do jogo nunca foi capaz de dominar as partes mais divertidas. Isso, creio eu, é a maior dádiva de África para o futebol internacional até agora.
E com a ajuda de África, poderíamos ser capazes de recuperar o lúdico do futebol, que hoje é eclipsada por jogadores pagos principescamente, as expectativas tácticas e a seriedade mortal que torna o jogo mais virtual e muito menos vivo.
A minha maior esperança é que esta Copa do Mundo signifique reportagens mais equilibradas sobre África. Habituámo-nos a histórias sobre como os africanos estão sofrendo e morrendo, mas muito raramente temos uma visão de como eles vivem.
Esta Copa do Mundo dará uma outra imagem de África, que nos permita vê-la como ela realmente é - o lado bom e o mau - mas, sobretudo, como um continente cujos cidadãos se estão aproximando do futuro da mesma forma que o resto de nós. E que jogam futebol com grande entusiasmo. Às vezes com virtuosismo. Mas sempre com muito orgulho.
* Publicado no Financial Times. Henning Mankell é autor de “O Homem de Pequim” (Harvill Secker) e o romance ‘Wallander “.
Mais informações sobre o seu teatro em África, em www.henningmankell.com

sábado, 5 de junho de 2010

Mauro Pinto fotografia/exposicão