domingo, 27 de janeiro de 2008

CASCATA II - Vamo zimbora

Foto; Sérgio Santimano; Bamako - Nov. 2007

O COMPORTAMENTO de um pobre resume-se nisso mesmo: quando lhe cai dinheiro nas mãos já não sabe o que faz. No lugar de sentar e planear o valor que recebe - ou do seu suor ou de uma dádiva - estica todas as bandeiras que tem e que não tem e sente-se imperador.
Alarga os ombros e enfia as mãos nos bolsos assobiando alto músicas que nem sequer conhece. Comprará roupas novas.
Irá ao barbeiro fazer o corte de cabelo e todo o bairro saberá que Paulito ganhou lotaria.

Nesse dia ligou para um taxista, que lhe foi buscar em Matlemele – bairro longínquo contando a partir da baixa da cidade de Maputo – cobrando pelo frete 400,00MT por hora, que Paulito aceitou pagar sem regatear.
- Vamo zimbora.
Era um carro da marca Toyota Corolla, reluzente.
Que agora arrancava transportando um homem que acabava de ganhar um jackpot.
Um homem que libertava alegria.
Uma figura que se sentia feliz com a mudança de rumo da sua vida. Estava sentado no banco da trás, vestindo um fato clássico.
Fumava Peter Stuyvsant e parecia um personagem de cinema.
Aí vão eles: o Paulito recostado no banco macio e o condutor obedecendo às ordens do “patrão”.
- Vai pela “Joaquim Chissano” e ande devagar por favor.
- Sim boss .
- Incomoda-te o fumo?
- Não boss, fuma a vontade.
- Ok. Apanha a Kenneth Kaunda até onde “esbarra” com a “Julius Nyerere”, depois descemos para “apanhar” a marginal e dali rolamos até Waterfront.
Conhece Waterfront.
- Conheço, boss.
Conheço todos os cantos da cidade de Maputo.
Aí vão eles: o Paulito sentado no banco da trás, fumando como gente grande e o condutor obedecendo às ordens do “patrão”.
Contornaram a Praça Robert Mugabe e estacionaram em frente ao Waterfront.
Eram aproximadamente 12.30 horas, deixando ficar mais do que claro, que Paulito ia almoçar numa das casas de pasto mais distantes – em termos de classe – do cidadão comum.
Continuou recostado no banco traseiro, à espera que o taxista lhe fosse abrir a porta, o que efectivamente veio a acontecer.
Paulito parecia um verdadeiro imperador dentro daquele fato clássico, que nunca será usado a despropósito, porque, segundo o próprio, não haverá nada que lhe impeça de vestir o que ele gosta, seja em que momento for.
Aí vai o Paulito, fumando o seu Peter Stuyvsant, falando ao telefone, fazendo ao mesmo tempo um sinal para que o taxista lhe seguisse para o interior do Waterfront.
Era um telefone de luxo, caro, muito caro, que Paulito exibia.
Lá dentro, ao entrar, não podia passar despercebido.
Todos olhavam para ele: um jovem bem parecido, vestido, ainda por cima, com distinção, falando a um telefone de ouro, ou quase de ouro.
- Dá-nos dois pratos de lagostas.
- E para beber?
- Vinho do Porto.
O taxista apanhou um susto.
Comeu e bebeu, como nunca o tinha feito antes, num local que também nunca tinha entrado antes. Era um ambiente de todas as raças, mas tudo gente fina e outros que pareciam ser.
Pelo menos pareciam.
Depois da refeição levantaram-se, os dois: Paulito e o taxista, de regresso à casa.
Eram aproximadamente 20.00 horas e o homem – chegado ao local onde o taxista lhe havia ido buscar – não teve nenhuma dificuldade em pagar, sem precisar dos trocos.
Passou a requisitar sempre o carro da praça, ora indo sozinho, ora com uma namorada ocasional, ora com várias ao mesmo tempo, pagando sem pestanejar tudo o que lhe elas queriam e pediam.
Paulito hoje anda no “Senta baixo” bebendo thonthontho e cravando beatas a toda a hora.

Alexandre Chaúque - Siabongafirmino@yahoo.com.br
Maputo, Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2008:: Notícias

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