sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Morte brutal de Augusto Cuvilas

Augusto Cuvilas (foto "arquivo" Jornal Notícias)


Só o que aconteceu
MORREU de forma violenta Augusto Cuvilas, bailarino, coreógrafo e professor da Companhia Nacional de Canto e Dança.
Caro leitor, tire o chapéu, pare de mascar “chiclete” e apague o cigarro. Leia com atenção as palavras que se seguem, pertencem ao malogrado:
“Tragédia de um povo, tragédia essa que ninguém ousa comentar.
Será que estamos diante de cegos? Creio que não, talvez pudéssemos falar de fanatismo. Quem sabe? Nós definimos a verdade. Estamos numa guerra chamada ambição, onde temos que atingir inocentes para… para… não sei para quê, e será que tu sabes? Estou seguro que tu sabes, porque tu estás seguro que eu sei, mas estamos doentes, feridos, corrompidos, convencidos, sem palavra? Talvez sem comentários. Um mundo hipócrita! Onde os hipócritas sobrevivem”? (fim de citação). Escreveu em 2001 para o catálogo de apresentação da obra “De Costas Viradas à Verdade”, da sua autoria, exibido em Lisboa no âmbito do ciclo de “Nova Dança Africana - Projecto Danças na Cidade.”
A última vez que o vi foi há cinco dias. Ele estava daqueles seus óculos ovais escuros; trazia uma camisete preta justa, um fato de treino igualmente preto, a sua inseparável mochila à tiracolo e umas sandálias castanhas. Ele vinha a conduzir e ”dançava” à procura de um espaço para estacionar o seu elegante “4X4” preto ali na faixa central da Avenida 25 de Setembro, defronte do Café Continental e Cinema Scala em Maputo.
Por alguns instantes fiquei a “assisti-lo” naquela “performance” de tentar “enfiar-se” entre outras viaturas ali estacionadas. Não foi uma “coreografia” fácil.
Dir-se-ia foi uma “dança-drama” conseguida após aturados “movimentos”, e lá ele se encaixou..
Abriu a porta e, antes de pousar o pé direito no chão, deu para ver as sandálias quase cansadas que gostava de calçar. De seguida retirou do banco traseiro a sua mochila que a pendurou nas costas.
O tráfico era intenso e condicionado (os homens de reparação da estrada na “25 de Setembro” trabalhavam a todo o gás) num dia, cujo sol era tal, como diz o outro, de “assar os passarinhos nas árvores”.
Por uns instantes Cuvilas ficou ali “empeado” junto do seu “4X4” preto, à espera de saltar a estrada para o outro lado do passeio do Cinema Scala.
Foi então que vi com interesse aquela imagem cujo fundo era um cenário belíssimo: um “rastaman” de corpo esguio usando uns chinelinhos e mochila às costas junto de um carão preto, da cor do luto.
Aquilo era um instantâneo lindíssimo.
E como eu dizia, não aguentei com aquela imagem de contraste e, num rápido reflexo, puxei da minha máquina fotográfica e quando ia a disparar, eis que acende uma luz vermelha intermitente, com a mensagem “substitua as pilhas”. Ou seja, a bateria estava descarregada. E eu respondi (à máquina), “lixa-te! Logo agora que preciso desta foto, pá?! Caramba”.
Perdi aquele instantâneo.
E afinal, jamais voltaria a obter aquela foto de Augusto Cuvilas, um homem que me impressionava aquele seu ar de eterna simplicidade. Ele nunca transporta nos ombros a vaidade de ser uma vedeta, respeitada dentro e no estrangeiro. O malogrado nunca se colocara em posição de “inacessível”, não obstante o seu grau de formação, licenciou-se numa das maiores universidades parisienses.
Tinha ar de um tipo fino e muito educado. Afinal ele era fruto de muitas influências, ganhas através de múltiplos contactos com culturas e raças do mundo inteiro. Entretanto, há um aspecto a ter em conta, é que o facto de ele ser uma pessoas simples, não significava que era de lugar-comum. Cuvilas era cortês e homem de bem.
Um apaixonado pelas artes cénicas.
Era igualmente um homem de poucas falas (tímido) mas de palavras sábias, que caíam dos seus lábios dentro de uma voz mista (meio rouca e meio feminina). Percebi isso na última entrevista que ele concedeu ao “Notícias” e que tive a honra e privilégio de conversar com ele ali no Centro Cultural Franco-Moçambicano no decorrer do II Festival Internacional de Dança Contemporânea, onde foi exibida a obra da sua autoria “Ndzudzi”, evento que reuniu cerca de 40 companhias de dança de várias partes do mundo.
A informação sobre a morte de Augusto Cuvilas chegou até mim via SMS.
Não dei fé, “mandei passear”.
Até porque estava fresco do mediático boato sobre a morte de “Anibalzinho” propalado também via SMS-celular.
Mas, infelizmente, a confirmação nua e crua deixou-me derrubado.
Era um facto.
Embora sejam escassas as informações sobre a sua morte, conta-se que tudo terá acontecido na noite de sexta-feira. O malogrado sentiu um clima suspeito, de gente a cercar a sua residência para o assaltar.
Cuvilas tratou imediatamente de pedir socorro à Policia.
Por outro lado, encetou vários contactos nesse sentido, a pessoas próximas da sua relação. Entretanto, a chamada que caiu na Policia teve a seca resposta de alegada falta de transporte para lá se deslocar (precisamente quando “assistimos” há dias na “TV” um reforço de viaturas disponibilizadas pelo empresário Ned Satar, da Autocar, para usar nesta quadra festiva).
Nisso, uma das pessoas próximas de Cuvilas, igualmente contactada pelo malogrado, acabaria por providenciar uma viatura que a Polícia usaria para chegar à residência de Augusto Cuvilas, que não via a hora de ser socorrido já que se encontrava flanqueado.
Até aqui, tudo decorria sem grandes problemas.
Com efeito, foi ao chegar no local onde a vítima, Augusto Cuvilas, acompanhado pelo seu irmão mais velho e o guarda nocturno aguardavam ansiosamente pelo socorro da Polícia, que de repente ouve-se um tiroteio.
Patrão e empregados indefesos caíram de bruços.
Cuvilas tombava ali para nunca mais voltar a erguer-se.
O seu corpo, que era um instrumento de trabalho, por excelência, jazia sem qualquer “movimento”.
Calava-se assim na flor da juventude, com apenas 36 anos, uma das maiores referências das artes cénicas do país e da região.
Consumado o tiroteio, verificou-se que afinal se tratara de um erro.
Aqueles ali estatelados afinal não eram os supostos assaltantes, mas sim eram as vítimas que procuravam socorro... Tinham sido simplesmente confundidos!
Incrível!
Enquanto o guarda era levado para cuidados intensivos à Sala de Reanimação, Augusto Cuvilas era transportado inerte para a morgue do Hospital Central de Maputo...
Mais palavras? Para quê?
Paz à sua alma.
Texto de Albino Moises extraído do;
Jornal Noticias
moisesalbino@yahoo.com.br

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