terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O ANVERSO

foto Sérgio Santimano da série "terra incógnita" Niassa 2001-2005
Para a Lura, que me entende, crioulamente.
Negra me sou.
Me nasci sempre assim.
Como o chocolate de cacau, sim.
Mas me apontam os seios e as ancas:
“arre!, que bela preta, que coxame!”
Num tão silêncio de nadaspedir, não me magoo a voz.
Intrusas flexões entendo de uma língua que resguardo como um tal Camões a namorou e, infactível, me pediu, até chorou.
Sou-me negra.
De cacau, pois assim.
Mas já dispensei a perlada catinga e meu sexo negro é limiar redutor dessas míseras fatias de esmola de um quadro vindo, a leve dar, por séculos de idílios semânticos, no chão.
Me ergui e neste corpo se indo-se é vosso o espanto e o meu, rindo-se.
Negra me sou como mulher?
Me ame a quem me colher!
Lisboa, Porto, 1991

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