quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Matando a galinha dos ovos de ouro

Foto; Sérgio Santimano da série; "Cabo Delgado - Uma história fotográfica sobre África" 1997.

Mais de 400 milhões de dólares desapareceram do sistema bancário na década de 90 em Moçambique.
Carlos Cardoso e António Siba-Siba Macuácua foram provavelmente assassinados para impedir a verdade sobre isto e sobre a maneira como os roubos foram efectuados.
Todos os países usam os bancos para fins políticos.
Em Moçambique, os bancos foram usados para construir o socialismo, para manter o país a funcionar durante a guerra e depois, na nova era capitalista, para promover empresários locais e manter a economia livre de mãos estrangeiras.
Porém, banqueiros e homens de negócios, nacionais e estrangeiros, apropriaram-se simplesmente de muito dinheiro e foram muitas as mãos que foram ao saco.
Talvez haja uma diferença entre roubar dinheiro e promover uma nova elite.
Mas os que mataram Cardoso e Siba-Siba tinham perfeitamente a noção de que nunca poderiam tirar dinheiro e justificá-lo publicamente - e que tinha sido tirado dinheiro suficiente para justificar duas mortes pelo menos.
Talvez tenham conseguido garantir que os pormenores nunca venham a ser conhecidos.
Mas isso faz com que ainda seja mais importante passar em revista aquilo que se sabe e colocá-lo em contexto.
Este estudo baseia-se em entrevistas com banqueiros e pessoas que conhecem o cenário da banca moçambicana mas que deixaram de estar envolvidos quer com o BCM, quer com o Banco Austral.
O Banco de Moçambique recusou falar connosco.
Numa série de 11 artigos tentaremos mostrar:
como a criação do sistema bancário criou condições para a fraude e a corrupção;
como a nova elite conseguiu pilhar a banca antes da privatização;
como o FMI e o Banco Mundial "de facto" levaram o governo a aceitar a corrupção;
como as privatizações tiveram um cunho político e envolveram famílias importantes e ligadas a altas entidades do partido e do Estado;
como as duas privatizações de bancos foram dúbias e usadas por moçambicanos e seus associados estrangeiros para roubar ainda mais.
Lamento ter de dividir este ensaio em pedaços curtos, mas no final as 11 partes terão coberto o seguinte:
Banca socialista
A era pós-Samora
Privatização forçada dos bancos estatais
Privatização do BCM
Privatização do BPD
Colapso dos dois bancos
Quem ia ficar com o Banco Austral?
Uso da contabilidade para roubar
Lavagem de dinheiro
Roubando de contas no estrangeiro
Reflexões Finais
Não haverá revelações e poucas coisas são realmente novas.
Mas juntando aquilo que já é conhecido, espero mostrar que a ganância crescente acabou por matar a galinha dos ovos de ouro.
Ao fim e ao cabo a elite política perdeu o controlo dos bancos.
E em vez de ter servido para reforçar o poder económico dos moçambicanos, o resultado foi o controlo estrangeiro sobre a banca moçambicana.(Joseph Hanlon)
[próximo artigo]

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