domingo, 7 de outubro de 2007

Dockanema e a nova fase do filme africano








Eleutério Fenita



em Maputo


Há quem tivesse descrito o festival como "uma oportunidade de reescrever a História escondida de África"
Entre 14 e 23 de Setembro, as cidades de Maputo e Matola acolheram a 2ª edição do Dockanema, o festival que reuniu a produção mundial de filmes-documentários, com um olhar muito especial para África.
Foi o caso de “Bamako”, o filme que marcou o início de uma fascinante viagem pelas realidades, verdades e imaginários trazidos para a tela por mulheres e homens como o realizador Abderrahmane Sissako, uma das maiores referências no mapa cinematográfico africano.
O celebrado cineasta do Mali, convidado de honra do Dockanema, acabou, ao relembrar a sinopse do seu filme no primeiro dia do festival, por recordar de certa forma a mensagem que o próprio evento passou.
O filme centra-se num julgamento realizado no pátio de uma casa em Bamako, capital do Mali, onde diferentes representantes da sociedade africana acusam o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional como sendo os responsáveis pelo subdesenvolvimento do continente.
Culpa institucional
Entretanto, a vida continua no bairro, em particular para uma cantora de nome Melé e para o seu marido, Chaka.
Bamako
Quis chamar a atenção para o futuro do continente, mostrar com este filme que África não é necessariamente o continente de miséria e de guerra mas um continente com consciência de si próprio

Abderrahmane Sissako, realizador
“Quis chamar a atenção para o futuro do continente, mostrar com este filme que África não é necessariamente o continente de miséria e de guerra mas um continente que tem consciência de si próprio e das suas dificuldades”, explicou o realizador.
Mas exactamente em que é que consiste o Dockanema? Quais os seus objectivos, de que panos é feito este evento que vai ainda na sua infância mas que já está a mexer em África e noutras paragens?
Pedro Pimenta, director do festival, observou à BBC que “em Moçambique, como noutras partes do mundo, há um certo hábito de ir ao cinema que desaparece. Uns apontam a televisão, os DVDs e os vídeos como sendo os culpados.
Abrir os olhos
“Nós achamos que Moçambique não teve capacidade de adaptar esse hábito à nova realidade. Hoje em dia não se pode esperar que as pessoas venham ao cinema, é preciso levar o cinema às pessoas.
"Dockanema propõe-se fazer isso, multiplicar os pontos de exibição e fornecer aos membros do público algo que não viram durante o resto do ano.
Todas as sessões do Dockanema, que custou 200 mil dólares a organizar, foram gratuitas.
Pedro Pimenta considerou que a programação cinematográfica audiovisual em oferta nos diversos canais de televisão, nos videoclubes e nos DVDs, não tratam desse tipo de matéria.
“A avaliação que nós fazemos é que existe potencialmente um público que está interessado em informar-se de uma maneira diferente, que quer sair um pouco da dominante do filme de acção, da telenovela, do futebol, sempre, sempre ao longo de todo um ano”, sublinhou.
História escondida
Todas as sessões do Dockanema, que custou 200 mil dólares a organizar num esforço de angariação que demorou um ano inteiro, foram gratuitas.
“No nosso entender, esta é, de momento, a opção certa, considerou.



A equação económica não estaria resolvida se pedíssemos às pessoas que pagassem um bilhete, porque conhecemos muito bem as condições socioeconómicas em que o país se encontra, onde muitos, dentro do seu limitado orçamento, têm de fazer escolhas, muitas vezes dolorosas”, apontou.
A afirmação da narrativa oral
O que distingue o Dockanema é que o cinema africano está a entrar numa nova fase e o que está a ser feito é reencontrar o discurso, a narrativa na primeira voz.



Mais do que recontar ou rescrever a História, trata-se de uma reafirmação de que as pessoas que viveram as histórias na primeira pessoa são perfeitamente capazes de as contar.

Claire Andrade-Watkins, realizadora
Há quem tivesse descrito o Dockanema como uma oportunidade de revisitar e se calhar até mesmo reescrever a História que, segundo os países africanos em particular, ainda permanece escondida.
Claire Andrade-Watkins, uma realizadora norte-americana de origem cabo-verdiana, trouxe para o Dockanema a longa-metragem “Será um Porto-riquenho Esquisito?”, sobre o desmoronar do tecido sócio-cultural de uma comunidade de imigrantes caboverdiana residente em Providence, nos Estados Unidos.
É uma história recordada e contada com mágoa na primeira pessoa pelos mais velhos que a sentiram na pele, na família e nos amigos.
“É o primeiro documentário sobre a experiência de cabo-verdianos na diáspora e serve como base para outras histórias de imigrantes cabo-verdianos que ainda não foram contadas. É o relato de uma comunidade cuja história foi apagada antes de ser escrita”, descreveu Andrade-Watkins.
Nova fase
Para a realizadora, “o que distingue e torna o Dockanema importante é que o cinema africano está a entrar numa nova fase e o que está a ser feito é reencontrar o discurso, a narrativa na primeira voz.
“Ngwenya, o Crocodilo", de Isabel Noronha sobre o pintor moçambicano, Malangatana Ngwenya foi um dos documentários mais apreciados na mostra.
Mais do que recontar ou rescrever a História, trata-se de uma reafirmação de que as pessoas que viveram as histórias na primeira pessoa são perfeitamente capazes de as contar. É a afirmação da narrativa oral”, excalmou.
Como uma das principais novidades do país anfitrião, a segunda edição do Dockanema teve “Hóspedes da Noite” de Licínio de Azevedo e “Ngwenya, o Crocodilo", de Isabel Noronha sobre a incontornável bandeira das artes plásticas africanas, o pintor moçambicano, Malangatana Ngwenya.
Embora o Dockanema seja sobre cinema, o festival não se resume apenas e unicamente a projecções de filmes, como explicou o seu director, Pedro Pimenta.
Fórum
“Um dos objectivos mais importantes do Dockanema é trazer para Maputo pessoas de diversos quadrantes no quadro de uma iniciativa a que chamámos o Fórum Dockanema. Todos os dias houve uma mesa redonda, um debate, um diálogo, uma palestra…”
A presença da mulher nas obras cinematográficas foi notória na mostra
A presença da mulher nas obras cinematográficas nesta segunda edição de Dockanema foi notória. Exemplos incluem “As Mulheres Vêem Muita Coisa” da holandesa Meira Asher, sobre três antigas crianças-soldado.
Houve também “Senegalesas e Islão”, da senegalesa Angèle Diabang Brener e ainda “Mulheres de Força” do realizador zimbabueano, Tsitsi Dangarembga, que aborda o estigma e a discriminação a que estão sujeitos os que, sendo seropositivos ou apenas familiares e amigos, decidem “dar a cara”.
Paola Rolletta, da organização do festival, descreveu o filme. “As protagonistas são duas mulheres com o HIV que usam a sua experiência com a doença como um fórum para a educação pública e a consciencialização. Uma era modelo e outra de meios mais pobres. A película mostra a realidade da vida das pessoas que enfrentam o problema.”
Outras janelas
No final de uma das sessões, espectadores anónimos fizeram o seguinte balanço:
“Eu diria que até certo ponto começa a surgir o ‘bichinho’ do cinema em Moçambique."
“É sempre bom ter uma nova perspectiva. O filme-documentário abre outras janelas sobre o mundo."
“Dantes tínhamos cerca de 60 filmes e agora temos 83.
Os moçambicanos devem aproveitar esta oportunidade.

Afinal, já estamos a fazer algum cinema e isso ajuda-nos a crescer.”

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