terça-feira, 9 de outubro de 2007

A talhe de foice

foto; Sérgio Santimano "da série; Ilha de Mocambique"



Por Machado da Graça
A mesma peça

Todos os anos eleitorais a cena se repete. A Frelimo e o seu Governo “descobrem” que existem uns homens armados em Marínguè. E “descobrem” também que esses homens são perigosíssimos para a paz.
E, portanto, como se avizinham as eleições provinciais, aqui está, de novo, a máquina de propaganda da Frelimo a agitar o fantasma dos tais homens armados.
Ora a mim parece que é muito mais do que tempo de acabar com este espectáculo tantas vezes em reposição que já ninguém o consegue mais aturar.
Até onde recordo os Acordos de Roma previam que tais homens deveriam ser integrados na Polícia.
Só que não foram.
E parece-me que não foram porque são úteis assim para as duas partes. Para a Renamo que os usa para guardar seja lá o que for que tem armazenado em Marínguè, em zonas onde o poder estatal não chega. Para a Frelimo porque vão podendo ser usados como papões destinados a assustar os moçambicanos.
Ora, verdade se diga, não tenho conhecimento de que esses tais homens armados tenham alguma vez, nos últimos 15 anos, disparado as suas armas seja contra quem for.
Ao contrário da Polícia, em relação à qual posso fazer uma lista, bastante longa, de inocentes que matou.
Portanto é muito mais do que tempo de se acabar com esta reposição regular de uma peça de teatro que já não interessa a ninguém. Já todos conhecemos o que os actores vão dizer a cada momento. Já todos sabemos que movimentos vão acontecer no palco.
Já todos sabemos, inclusive, que, acabado o período eleitoral, a peça volta a sair de cena por mais uns tempos, embora os cenários, guarda-roupa e adereços sejam guardados nos mesmos baús, cheios de traça, para voltarem a ser usados logo que volte a cheirar a urnas de voto.
Eventualmente os encenadores da peça ainda não perceberam que os espectadores já estão fartos.
Porque, se tivessem percebido, o assunto já há muito teria sido resolvido. Se 15 anos não chegaram para integrar umas dezenas de homens na Polícia não foi por falta de tempo. Foi por falta de vontade.
Falta de vontade dos dois lados.
E esses dois lados estão-se nas tintas para nós todos, os cidadãos do país.
Para conseguirem os seus objectivos, isto é os nossos votos, vão empurrando os tais homens armados de um lado para o outro, agitando-os como trunfos no seu jogo pelo poder.
E nós, homens desarmados, que não temos nem o poder de fogo dos da Renamo nem dos da Polícia (= Frelimo), ficamos no meio, olhando para uns e para outros, à espera que percebam o papel ridículo que andam há anos a fazer.
Coisa que, infelizmente, não parece estar para breve, a avaliar pelo entusiasmo que alguns dos actores cómicos continuam a demonstrar no desempenho do seu papel.
A única coisa que me parece poderia ser um aproveitamento positivo de tudo isto seria a criação de um Festival de Teatro de Maringué, a realizar-se todos os anos eleitorais, em que vários grupos se poderiam apresentar, sendo a sessão de encerramento, uma espécie de Gala, sempre a representação da peça Os Homens Armados da Renamo.
Assim como, em Mueda, durante muitos anos se representou a peça sobre o Massacre de Mueda, Maringué passaria também a ter o seu festival regular.
Isto para não falar de Zavala, onde o Festival de Timbila é também uma recordação de feitos guerreiros do passado.
Agora que, como argumento eleitoral, esta história dos homens armados da Renamo já deu o que tinha a dar, já.
Poupem-nos a paciência!



(Publicado no jornal Savana-05-10-07)

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial